Porque a primeira escrita a gente nunca esquece.

Amigos

dimanche, juillet 30, 2006

Acordar, viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea. Carlos Drummond de Andrade.

lundi, juillet 24, 2006



Só para complementar o lindo poema logo abaixo.

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

(Carlos Drummond de Andrade)

Encontrei este poema no site: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema060.htm e não podia deixar de colocar esta homenagem à Clarice e à Paty...
Inté mais!!!!

jeudi, juillet 20, 2006

TALENTO EXCEPCIONAL!


As "Flores" de Pablo Picasso são para em belezar este poema que recebi por e-mail, enviado por uma prima minha. Poema que foi escrito, segundo diz e-mail, por um excepcional, que geralmente as pessoas da dita "Sociedade Civilizada" desprezam; Eu não poderia desprezá-lo, pois o poema é muito bonito, aí vai ele:

Ilusões DO AMANHÃ

"Por que eu vivo procurando
Um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar
Sem nem ao menos me olhar
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um
O meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo ainda tem jeito
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que acredita ainda no amor.

"PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)Este poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade,de excepcional.Excepcional é a sua sensibilidade!Ele tem 28 anos, com idade mental de 15 e peço que divulguem para prestigiá-lo. Se uma pessoa assim acredita tanto porque as que se dizem normais não acreditam?
Você é capaz de responder a esta pergunta sem gaguejar?

mercredi, juillet 19, 2006

Muitas Vozes

Muitas Vozes

Meu poema
é um tumulto:
a falaque nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz

se dizes pêra
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açucares
ou
se azul disseres
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
essa alegria

A boca fria
da moça
o maruim na poça
a hemorragia da manhã

Tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que o poema dispara)
chama
esses fosseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.

Ferreira Gullar

Voltei com um título em lilás (cor da transmutação) com meus votos para essa nova fase (pelo menos minha) do "Pena em punho": que a arte, esse caos, possa ser captada pelos nossos ouvidos tão acostumados com cultura inútil.
Até mais.

lundi, juillet 17, 2006


A Fuga das Rosas

Hoje, já não a vejo.
outrora era minha guia, meu cão guia!
Belo é o cego, de amor cego, numa cidade cega!
Feliz sem sono, sem amor também, do resto perdi,
A canalha me sorri, crê que a amo!
Qual era mesmo o motivo? Sim, as trevas, a fuga.
Eu sempre me encontro na fuga, tenho medo!
E você sabe o que é ter medo? Eu não , eu fujo!
Semana que vem estarei partindo, vou ver a Rosa.
Bela, estúpida, mas, bela sabe que não a amo, sabe que nunca amei, nem amarei ninguém, mas Ela me espera ao entardecer...
Sempre...


autoria de Rodrigo "Berinjela" do Amaral. meu amigo poeta!

dimanche, juillet 16, 2006


Olá amigos, este é o novo endereço do "Pena em Punho", logo todos os colaboradores estarão aqui, a casa é nova mas as palavras,os poemas, as indignações, as alegrias e também as dores continuarão, e para aquela que estimo tanto e que junto a mim criou este blog e que o "batizou" eu deixo aqui o meu "Muito obrigada" por tudo!
À minha querida amiga Biju este poema mais que querido e que diz um pouco de todos nós:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões